O secretário de Segurança Interna dos EUA, Markwayne Mullin, declarou em audiência no Comitê de Apropriações da Câmara que o presidente já se reuniu com o provável indicado para dirigir a CISA e que a agência precisa contratar cerca de 600 pessoas para retomar fôlego operacional. A nomeação destrava o cargo após mais de 17 meses sem diretor confirmado pelo Senado, em um momento em que Pequim segue listada como ameaça cibernética número um.
Em depoimento ao subcomitê da Câmara que financia o Departamento de Segurança Interna, Mullin afirmou que a CISA “não tem o pessoal” para cumprir o mandato e que a prioridade imediata é “colocar o diretor em posição”. Sem mencionar o nome do candidato, o secretário confirmou apenas que o presidente já o conheceu pessoalmente. As apostas em Washington apontam Shyam Sankar, atual diretor de tecnologia da Palantir Technologies, embora a Casa Branca tenha dito anteriormente que Sankar “não é um nome de topo” “neste momento”.
A CISA está sem diretor permanente desde janeiro de 2025, quando Jen Easterly deixou o cargo no fim do governo Biden. O diretor interino, Nick Andersen, conduz a agência desde então. Andersen disse recentemente que o processo de recontratação já começou e que a CISA deve absorver cerca de 300 novos profissionais nos próximos meses.
A CISA perdeu aproximadamente um terço de seus servidores em rodadas de demissões e reduções voluntárias promovidas pela administração Trump no âmbito do programa de encolhimento do governo federal. Por contagens divulgadas em audiências e na imprensa especializada, esse corte corresponde a cerca de mil pessoas. A meta agora declarada pelo secretário é recompor aproximadamente 600 vagas — não todas as posições perdidas, mas o suficiente, segundo ele, para retomar funções críticas.
Mullin sinalizou que a janela de reconstrução é de “cerca de um ano” para colocar a agência de volta em ritmo pleno, ainda que ganhos significativos possam ocorrer nos primeiros três meses. Democratas no comitê argumentam que os cortes minaram justamente a capacidade da CISA de manter parceria contínua com governos estaduais, operadores de infraestrutura crítica e a indústria privada — funções que dependem mais de presença e relacionamento que de orçamento bruto.
“A China trabalha todos os dias para tentar entrar em nossos sistemas. É aí que a CISA terá papel central, porque não podemos esperar que Meta ou Google façam isso sozinhos.”
Markwayne Mullin, secretário do DHS
A audiência expõe um paradoxo que vem marcando o segundo mandato Trump em ciber: ao mesmo tempo em que a Casa Branca classifica a China como ameaça existencial em discursos públicos, manteve por mais de 500 dias acéfala a única agência federal civil dedicada exclusivamente a defender redes críticas. Mullin tenta encerrar essa janela e adota um tom pragmático — “não quero corpos em posições, quero gente talentosa” — mas a reconstrução real precisa de mais do que vagas: precisa de continuidade política, autoridade orçamentária e relação saudável com as Big Tech, que historicamente desconfiam de “clareza” excessiva por parte de Washington sobre o que a CISA pode ou não fazer.
A potencial indicação de Shyam Sankar, executivo da Palantir, é simbolicamente forte e também controversa. Sankar é tido como pragmático, próximo do ecossistema de defesa e com trânsito tanto em Washington quanto no Vale do Silício — perfil que pode acelerar contratações e parcerias com o setor privado. Por outro lado, sua nomeação reabriria debates sobre conflitos de interesse, transparência em contratos de inteligência e o limite entre missão civil da CISA e a lógica de empresas que vendem capacidade de vigilância. Vale lembrar que a própria Casa Branca matizou a aposta em Sankar, sinalizando que o nome ainda pode mudar antes da formalização.
Do ponto de vista internacional, o efeito de transbordamento atinge parceiros como a Comunidade Europeia de CSIRTs, o Centro de Defesa Cibernética da OTAN e governos da América Latina — incluindo o Brasil — que têm na CISA uma referência operacional para guias, KEV catalog e tratativas bilaterais sobre threat intelligence. Cada semana sem diretor confirmado é uma semana em que essa cooperação opera no automático, sem ousadia política para abrir novas frentes.
Fonte: The Record
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