Polymarket sofre ataque de supply chain via fornecedor terceirizado e perde US$ 3 milhões em pUSD; usuários afetados serão reembolsados

A Polymarket, principal mercado de previsão descentralizado em criptomoeda, confirmou que um fornecedor terceirizado foi comprometido e injetou um script malicioso no frontend de parte dos usuários, resultando em um roubo estimado em US$ 3 milhões em pUSD — a moeda de negociação interna da plataforma, lastreada em USDC. A empresa diz ter contido o incidente, removido a dependência afetada e promete reembolso integral aos atingidos, em mais um capítulo na crescente onda de ataques de cadeia de suprimentos contra Web3.

O que aconteceu

Em nota publicada na quinta-feira no X (antigo Twitter), a Polymarket informou ter descoberto na manhã do mesmo dia que “um fornecedor terceirizado havia sido comprometido, injetando um script malicioso no frontend para alguns usuários”. A empresa diz que conteve o incidente, removeu a dependência afetada e está em contato com os atingidos para reembolso integral. Não foram divulgados oficialmente o número de vítimas nem o montante exato roubado.

A estimativa de US$ 3 milhões vem da empresa de segurança em blockchain PeckShield, que rastreou as transações on-chain. Segundo a análise, o atacante converteu pUSD roubado em USDC, fez a ponte (bridge) do valor entre a rede Polygon e a Ethereum e finalmente trocou os fundos por aproximadamente 1.893 ETH. Um analista independente confirmou que ao menos 11 vítimas foram impactadas até o momento. A autoria do ataque permanece desconhecida.

Como o ataque funciona

O vetor é o mesmo que vem assombrando plataformas DeFi nos últimos dois anos: comprometimento de uma dependência JavaScript carregada no navegador do usuário. Quando o frontend da exchange ou do dApp puxa um script — seja de um CDN, de um analytics, de uma biblioteca de UI ou de um SDK terceiro — qualquer alteração maliciosa nesse pacote é entregue diretamente ao browser da vítima, com origem de confiança igual à do site oficial.

Em casos como este, o script injetado costuma interceptar transações antes da assinatura, trocar endereços de destino dentro do wallet popup ou, em variantes mais agressivas, solicitar aprovações ilimitadas (“infinite approval”) em contratos ERC-20 para drenar o saldo do usuário a qualquer momento. A criptografia da blockchain não é tocada; o que é manipulado é a camada de interface, onde o usuário decide o que assinar.

“Nesta manhã descobrimos que um fornecedor terceirizado havia sido comprometido, injetando um script malicioso em nosso frontend para alguns usuários. Contivemos o incidente e removemos a dependência afetada.”

Polymarket, em comunicado oficial

Riscos e limitações

  • Promessa de reembolso, mas sem detalhes: a Polymarket diz que reembolsará todos os afetados, mas não publicou cronograma, mecanismo ou critério de elegibilidade. Em incidentes semelhantes no passado, fundos foram cobertos integralmente — em outros, ressarcimentos parciais ou condicionados foram a regra.
  • Janela de exposição desconhecida: não foi divulgado por quanto tempo o script malicioso permaneceu ativo, o que dificulta o levantamento total de vítimas. Usuários que não notaram movimentações estranhas devem verificar histórico recente.
  • Vendor não identificado: sem o nome do fornecedor comprometido, outras plataformas que usem a mesma dependência não conseguem se proteger preventivamente. É padrão que essa informação seja revelada com atraso, por razões legais e contratuais.
  • Risco residual em wallets conectadas: aprovações de contratos concedidas durante a janela do ataque podem permanecer ativas. Usuários precisam revogar permissões via ferramentas como Revoke.cash ou Etherscan Token Approval Checker.

Análise

O ataque à Polymarket repete um padrão que já é o vetor número um de comprometimento em DeFi: cadeia de suprimentos no frontend. Em 2022, o Curve.fi sofreu um sequestro de DNS via Iwantmyname; em 2024, a BadgerDAO foi vítima de um Cloudflare Worker malicioso; o caso Ledger Connect Kit em dezembro de 2023 contaminou centenas de dApps de uma só vez. O vetor é eficiente porque os smart contracts em blockchain são, na grande maioria, auditados, enquanto a camada web tradicional — com seu emaranhado de bibliotecas npm, scripts de analytics e SDKs de carteira — segue sendo o elo frágil pelo qual o adversário consegue atingir o usuário final.

Há também a dimensão geopolítica. A Polymarket vive um momento de alta visibilidade após sua integração com o X em 2025 e o uso intenso da plataforma para precificar eleições, decisões da Justiça norte-americana e até resultados de processos contra figuras públicas. Cada notícia de roubo via frontend reforça a tese regulatória — sobretudo da CFTC e de reguladores europeus — de que mercados de previsão precisam de controles operacionais mais rígidos. Para o setor cripto como um todo, US$ 3 milhões é um valor relativamente baixo, mas o tipo de ataque pesa mais que o dígito: confirma que mesmo plataformas com infraestrutura on-chain robusta dependem de uma camada web tão vulnerável quanto qualquer e-commerce tradicional.

Para usuários brasileiros, vale o alerta: a CVM publicou em 2025 a Resolução 175, que regula a oferta de tokens, mas mercados de previsão como a Polymarket operam em zona cinzenta, sem cobertura local em caso de prejuízo. Diferente de uma corretora de cripto regulada, a janela para reaver fundos depende exclusivamente da boa-fé do operador.

Recomendações práticas

  • Revogar imediatamente aprovações ERC-20 concedidas a contratos da Polymarket nos últimos sete dias, usando ferramentas como Revoke.cash; em caso de dúvida, mover saldos para uma carteira nova.
  • Habilitar, sempre que possível, hardware wallets (Ledger, Trezor) com tela própria — elas exibem o endereço real de destino, frustrando a maioria dos ataques de “address swap” no frontend.
  • Em uso institucional, exigir Subresource Integrity (SRI) e CSP estrito em dApps próprios, com whitelisting explícito de cada dependência externa; auditar periodicamente o package-lock.json.
  • Para operadores Web3, considerar arquitetura de “frontend congelado” — builds reproducíveis, assinados e publicados em IPFS — reduzindo o vetor de injeção do servidor de hospedagem.
  • Equipes de SOC monitorando endereços corporativos devem incluir alertas para transações inesperadas em Polygon (rede onde a Polymarket opera) e bridges suspeitos para Ethereum.
  • Acompanhar canais oficiais da Polymarket para detalhes sobre o reembolso e divulgar internamente para que vítimas em equipes não fiquem desinformadas.

Fonte: SecurityWeek

TheNinja

Recent Posts

DHS sinaliza nomeação iminente para diretor da CISA e plano de contratar 600 — agência segue sem comando confirmado desde janeiro de 2025

Secretário de Segurança Interna Markwayne Mullin diz que presidente já se reuniu com provável indicado…

5 horas ago

SSU e FBI desmontam campanha russa que rouba contas de apps de mensagens com falsos SMS de suporte

Operação conjunta entre Ucrânia e EUA expõe ataques de smishing atribuíveis a clusters russos (Star…

5 horas ago

Framework chinês Uni-App é base para 236 mil sites de golpe de investimento, revela Infoblox

Infoblox identifica mais de 236.000 domínios de fraudes financeiras construídos sobre o framework legítimo Uni-App…

1 dia ago

FCC endurece regras para cabos submarinos: banimento total a equipamentos chineses e licenciamento de SLTE

FCC aprova pacote regulatório mais agressivo da década para cabos submarinos: veto a equipamentos chineses…

1 dia ago

FBI e CISA alertam: hackers russos agora roubam a Backup Recovery Key do Signal para tomar contas

FBI e CISA atualizam advisory PSA I-062626-PSA: operadores russos UNC5792 e UNC4221 induzem alvos a…

1 dia ago

Cisco Catalyst SD-WAN: zero-day CVE-2026-20245 já era explorado meses antes da divulgação, revela Mandiant

Investigação do Mandiant mostra que um operador desconhecido encadeou três zero-days em controladores Cisco Catalyst…

2 dias ago