HollowGraph: malware iraniano usa calendário do Microsoft 365 como canal de C2

Group-IB documenta o HollowGraph, malware que transforma eventos de calendário no Microsoft 365 em dead-drop bidirecional via Graph API. 12 vítimas identificadas em Israel, atribuição de baixa confiança ao subgrupo iraniano Lyceum e uso de datas em 2050 para permanecer invisível ao dono da caixa comprometida.

HollowGraph malware abusa do calendário do Microsoft 365 como canal de C2

Um novo malware chamado HollowGraph transforma o calendário de uma conta Microsoft 365 em canal de comando e controle bidirecional. Operadores plantam tarefas como eventos de calendário; o implante devolve arquivos exfiltrados como anexos em novos eventos, todos datados para 13 de maio de 2050 para escapar do olho da vítima. A Group-IB identificou 12 vítimas, três ainda em comunicação ativa, e atribui o toolkit com baixa confiança ao subgrupo iraniano Lyceum, também conhecido como Hexane e SiameseKitten.

O que aconteceu

A Group-IB documentou o HollowGraph em relatório publicado em 21 de julho de 2026. O malware faz parte de um toolkit maior, provavelmente ligado ao Cavern Manticore, ator com nexo iraniano descrito pela Check Point no início do mês. O uso confirmado começou em 3 de junho — o que dá pouco mais de um mês e meio de operação silenciosa antes da exposição pública.

Os indicadores apontam para foco em Israel: a caixa de correio usada para exfiltração está registrada no país e as amostras de malware analisadas pela Group-IB foram enviadas de origens israelenses. A empresa aponta que o padrão sugere interesse específico, não campanha oportunista.

Como o C2 via calendário funciona

A arquitetura é engenhosa e faz um estrago silencioso na filosofia de detecção baseada em tráfego suspeito. O HollowGraph nunca contata um servidor controlado pelos atacantes para receber payload — todo o diálogo acontece contra endpoints legítimos da Microsoft via Graph API. Do ponto de vista do proxy corporativo ou do firewall, é tráfego para graph.microsoft.com, indistinguível do que gera qualquer aplicação Office 365 normal.

O implante tem apenas dois comandos suportados: “send” cria eventos com arquivos anexados (é assim que o dado exfiltrado sai) e “get” busca eventos plantados pelo operador para baixar novas instruções. É simples de implementar e brutalmente eficaz para escapar de análises comportamentais que procuram beacons, jitter regular ou domínios suspeitos.

“Usando a Microsoft Graph API, ele trata a caixa comprometida como um dead-drop de duas vias: operadores plantam tarefas como eventos e o implante exfiltra arquivos criando seus próprios eventos com dados criptografados em anexo”, explica a Group-IB.

O truque para permanecer invisível ao dono da caixa comprometida é usar uma data absurdamente futura — 13 de maio de 2050 — para todos os eventos. Isso empurra tudo para fora da visualização padrão de calendário e evita gerar notificações. A configuração hardcoded do malware (tenant ID do Entra ID, client ID e secret, endereço de e-mail alvo, domínio de C2 secundário e duas chaves RSA) é gravada em disco como logAzure.txt. Um canal secundário de DNS tunneling atualiza configuração e credenciais quando necessário.

Atribuição: por que a baixa confiança importa

Pelo formato de comando e estrutura, a Group-IB acredita que o HollowGraph é uma variante do framework Cavern, mas atribui a atividade — com baixa confiança explícita — ao subgrupo iraniano Lyceum (também conhecido como Hexane ou SiameseKitten), ligado ao MOIS via OilRig. A empresa é clara: existem semelhanças técnicas com Lyceum, mas nenhuma delas é suficientemente única para uma atribuição de alta confiança.

Essa transparência é bem-vinda num mercado onde a pressão comercial empurra para atribuições dramáticas. O consumidor operacional de threat intel deve ler “baixa confiança” como o que ela é: um sinal para investigar mais, não um selo de origem.

Quem é afetado

  • 12 vítimas identificadas, três ainda em comunicação ativa com a infraestrutura dos atacantes no momento do relatório.
  • Foco em entidades israelenses, com indícios técnicos consistentes: mailbox de exfiltração em Israel e amostras enviadas do país.
  • Qualquer organização usando Microsoft 365 é potencialmente exposta ao vetor — se o atacante consegue comprometer uma conta com escopo apropriado do Graph API, o modelo replica.
  • Ambientes com regras de DLP focadas em anexos de e-mail e proxy filtering são particularmente vulneráveis a essa técnica, que passa pelo Graph e não pelo SMTP.

Análise

O HollowGraph pertence a uma linhagem que ganha peso em 2026: C2 sobre serviços legítimos de nuvem. Antes foram GitHub Gists, Google Drive, Notion e OneNote. Agora, a Microsoft Graph API — a mesma superfície que centenas de aplicações empresariais consomem diariamente. O ataque não é criativo por acaso: é a resposta natural a ambientes cada vez mais cegos para tráfego externo fora do stack Microsoft, que trata graph.microsoft.com como confiável por default.

Duas comparações ajudam a dimensionar. O primeiro paralelo é com o SUNBURST (SolarWinds), que usou beacons DNS lentos e tráfego de update legítimo para atravessar controles. O segundo é com o APT29/BlueBravo, que já em 2022 experimentou canais via Notion e Trello. A diferença qualitativa do HollowGraph é a fluência com o modelo de eventos de calendário: usar campo customizado de anexo, embarcar cripto RSA na configuração e datar tudo para 2050. É engenharia inteligente sobre um serviço que quase ninguém audita a fundo.

Para o defensor, o problema é bem prático: detectar isso exige logs de auditoria do Microsoft 365 (Unified Audit Log) com retenção adequada — coisa que, no mundo real, raramente sobrevive além dos 90 dias padrão. A janela entre comprometimento e detecção do HollowGraph, se replicada em outros alvos, é maior que essa retenção. O ataque foi observado desde junho; se você é vítima e não tem UAL retido, o rastro sumiu antes de você ter chance de olhar.

Recomendações práticas

  • Retenção estendida do Unified Audit Log: mova o padrão de 90 dias para pelo menos 1 ano. Sem isso, você não caça HollowGraph — você descobre por relatório de terceiro.
  • Monitore criação atípica de eventos de calendário: volume alto de eventos criados por um mesmo principal, com anexos grandes, para datas remotas (2040+) — todos são anomalias detectáveis via Microsoft Purview ou Sentinel.
  • Audite Enterprise Applications e service principals: HollowGraph precisa de credenciais Entra ID com permissões Graph (Calendars.ReadWrite, Files.ReadWrite). Reveja consentimentos concedidos por usuários e o inventário de client secrets.
  • Alertas em client secret e certificate creation: cada nova credencial de aplicativo Entra ID deve ser revisada. Muitas operações de C2 sobre Graph começam nesse passo.
  • Procure logAzure.txt em disco: IoC direto do HollowGraph. Rode busca em endpoints Windows.
  • Restrinja permissões Graph ao mínimo necessário: aplique o princípio do least privilege em cada Enterprise App. Delegated Calendars.ReadWrite raramente precisa ser concedido de forma ampla.
  • Detecção de DNS tunneling: HollowGraph tem canal DNS de backup. Sensores de DNS com análise de entropia e frequência ajudam.

Fonte: SecurityWeek