Pesquisadores identificaram cerca de 7.600 repositórios maliciosos no GitHub, dos quais mais de 800 se disfarçam de Skills de IA ou servidores MCP (Model Context Protocol) para distribuir o malware SmartLoader. A campanha, batizada de FakeGit pela Island Security, já acumulou mais de 14 milhões de downloads em cerca de 200 repositórios ativos e introduz uma nova modalidade de engenharia social chamada AgentBaiting, capaz de enganar agentes de IA como Claude Code, Google Gemini e ChatGPT sem qualquer intervenção humana.
A operação FakeGit é um esforço coordenado de abuso do GitHub como vetor de distribuição de malware. Os operadores construíram uma frota de aproximadamente 6.600 perfis de desenvolvedores falsos que hospedam 7.600 repositórios projetados para se passar por projetos legítimos: integrações com Gmail e WhatsApp, tooling para Databricks, Jenkins, Docker e uma variedade crescente de Skills e servidores MCP prontos para uso.
Cada repositório traz README convincente, screenshots plausíveis e instruções que orientam vítimas — ou agentes de IA — a baixar um arquivo ZIP hospedado nas GitHub Release assets. Ao ser executado, esse pacote inicia uma cadeia baseada em LuaJIT que carrega um script Lua ofuscado e entrega o SmartLoader. O papel do SmartLoader é estabelecer persistência e puxar payloads secundários, com destaque para o infostealer StealC, capaz de coletar credenciais, cookies, carteiras de criptomoedas e arquivos sensíveis das máquinas comprometidas.
A pesquisa foi conduzida pela Island Security e divulgada pelo The Hacker News. Segundo a empresa, o volume de downloads e a natureza automatizada da campanha indicam uma operação madura, com produção industrial de repositórios falsos alinhada às buscas mais populares por ferramentas de automação e IA em 2026.
A cadeia técnica é enxuta e eficaz. O usuário baixa o ZIP oferecido no README; o pacote extrai binários LuaJIT que executam um script Lua ofuscado; esse script carrega o SmartLoader, que atua como downloader modular. A partir desse ponto, o operador escolhe qual payload entregar — na maioria dos casos observados, o StealC. O uso de LuaJIT é uma escolha deliberada: reduz assinaturas conhecidas em EDR, permite ofuscação eficiente e mantém a pegada em disco baixa.
A grande virada da FakeGit, no entanto, é o AgentBaiting. Pela primeira vez, uma campanha de supply-chain foi desenhada para explorar assistentes de codificação e agentes autônomos. Nos testes da Island, Claude Code, Google Gemini e ChatGPT recuperaram repositórios da campanha ao serem instruídos a buscar Skills ou servidores MCP para tarefas comuns — sem que o usuário fornecesse links. O agente, ao seguir READMEs formatados como documentação legítima, executava o processo de instalação e desencadeava a infecção sem o humano nunca abrir a página do projeto.
“O FakeGit não precisou invadir nada. Ele explora a confiança que humanos e agentes de IA depositam em repositórios públicos” — Oleg Zaytsev, pesquisador da Island Security.
O impacto atinge três públicos que precisam repensar seus fluxos de descoberta de software:
A FakeGit consolida uma tendência que já vinha se desenhando desde 2024, quando campanhas de typosquatting em npm e PyPI ganharam escala industrial. A diferença aqui é qualitativa: o alvo primário deixou de ser exclusivamente o desenvolvedor humano e passou a incluir os assistentes de IA que atuam em seu nome. Se antes o vetor social era o “copiar e colar” apressado do desenvolvedor sob pressão, agora o vetor é o agente autônomo que segue instruções sem questionar procedência.
Isso muda a superfície de ataque de forma significativa. Ferramentas de segurança de código atuam bem sobre bibliotecas empacotadas com hash verificável (npm, PyPI, Maven), mas o ecossistema de Skills e MCPs ainda não tem infraestrutura equivalente de reputação, assinatura ou revisão. Registries como MCP.so e Glama vivem hoje o momento que npm viveu em 2019, quando pacotes maliciosos apareciam em minutos e eram removidos em horas — tempo mais que suficiente para infectar milhares.
Somando o AgentBaiting à realidade de que muitas empresas concedem aos agentes credenciais amplas para executar tarefas, a FakeGit é o primeiro exemplo público em escala de um novo padrão: o agente como beachhead. Se um MCP malicioso for instalado por um Claude Code ou Cursor rodando em uma máquina corporativa, o atacante herda o mesmo perímetro de acesso que o desenvolvedor — variáveis de ambiente, tokens de nuvem e sessões ativas.
Fonte: The Hacker News
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