Segundo apuracao publicada pelo The Record, a administracao Trump tem como principal candidato para comandar a CISA (Cybersecurity and Infrastructure Security Agency) o CTO da Palantir Technologies, Shyam Sankar — embora a Casa Branca tenha negado o nome apos a publicacao. A agencia esta sem diretor confirmado pelo Senado desde a saida de Jen Easterly em janeiro de 2025 e o anterior indicado, Sean Plankey, retirou seu nome em abril. A nomeacao ocorreria a poucos dias do lancamento de uma executive order de IA que coloca a CISA como agencia-chave de execucao.
Sankar, 44 anos, esta na Palantir ha mais de duas decadas — quase 17 deles como COO, antes de assumir a cadeira de CTO em 2023. A Palantir tem laços profundos com a administracao Trump e e fornecedora central de IA empresarial e de defesa para o governo americano. Apos a publicacao da materia, um funcionario da Casa Branca disse que a informacao “neste momento nao e exata” e o porta-voz do Department of Homeland Security afirmou que “nao ha anuncios de pessoal a fazer no momento”.
O Secretario do DHS, Markwayne Mullin, declarou a parlamentares na quarta-feira que a administracao esta a ponto de indicar um diretor para a agencia, atualmente comandada pelo Acting Director Nick Andersen desde fevereiro. “Temos uma pessoa, prestes a ser indicada, que vai dirigir a CISA, com capacidade de recrutar e focar nas autoridades que temos. Queremos que a CISA seja a lider em ciberseguranca”, afirmou Mullin.
A CISA passou por cortes significativos de orcamento e forca de trabalho desde o inicio do segundo mandato de Trump. A agencia, criada em 2018, tornou-se nos anos Biden o principal hub federal de defesa cibernetica de infraestrutura critica, coordenando alertas, exercicios e diretrizes vinculantes (Binding Operational Directives) para agencias federais e operadores privados. Sob a nova gestao, a CISA viu seu mandato redirecionado: programas de combate a desinformacao foram desmontados, parcerias com estados encolheram e areas como CIRCIA (incident reporting) ficaram sob escrutinio.
A noticia da possivel indicacao de Sankar chega na esteira da publicacao, na terca-feira, de uma executive order sobre inteligencia artificial. O documento — apos uma versao inicial barrada por David Sacks, ex-czar de IA e cripto da administracao, sob argumento de risco a competitividade americana — reduz o periodo voluntario de revisao de modelos pelo governo de 90 para 30 dias. A CISA e citada repetidamente como agencia executora.
“IA deveria eliminar a burocracia, nao adiciona-la. Sem novo teatro de compliance. Sem comites de governanca de IA desenhados para frear processos e centralizar poder em gestores. IA deveria empoderar o trabalhador americano a se mover mais rapido, nao freia-lo.” — Shyam Sankar, em artigo publicado no Fox News em fevereiro
A potencial chegada de um quadro da Palantir a CISA marca uma virada simbolica importante. Sob Jen Easterly, a agencia construiu reputacao como entidade tecnica relativamente apartidaria — modelo “civil cyber defense” inspirado em parte na ANSSI francesa. A possibilidade de um CTO com base ideologica anti-burocracia comandando uma agencia regulatoria em pleno processo de implementacao de uma EO de IA cria uma tensao estrutural: ao mesmo tempo em que a CISA deve fiscalizar e coordenar adocao segura de IA no governo, seu lider seria oriundo de uma empresa que e provedora central dessa mesma IA — situacao classica de captura regulatoria em potencial.
O paralelo natural e o caso da Mythos, plataforma da Anthropic recentemente revelada como capaz de detectar e atacar zero-days sem intervencao humana. A combinacao “IA ofensiva autonoma + agencia federal de defesa cibernetica liderada por executivo da Palantir” sinaliza que o foco federal americano se desloca de defesa reativa para automatizacao de operacoes ofensivas e defensivas, com integracao mais estreita entre Pentagon, IC e CISA. Em termos praticos, isso eleva a barra para fornecedores nacionais de seguranca em qualquer pais que mantenha cadeia critica com os EUA, incluindo o Brasil, e abre espaço para fornecedores europeus posicionarem soberania tecnologica como diferencial.
Vale notar que a negativa imediata da Casa Branca apos a publicacao reduz a confianca na nomeacao especifica de Sankar, mas nao no padrao: ate ha tres semanas, o nome dominante era Sean Plankey (DOE/CESER). A composicao de candidatos circulados desde 2025 — todos com forte ligacao a contractors de defesa ou Big Tech — sugere que a CISA esta sendo reformulada como braco executivo da agenda de IA, e nao como guardia tecnica neutra.
O Brasil acompanha as orientacoes da CISA por dois canais: o CTIR Gov (CCG, vinculado ao GSI) e o CERT.br (NIC.br). Ambos espelham, na maior parte, a lista KEV e os principais alertas tecnicos. Caso a nova diretoria da CISA reduza a velocidade ou a transparencia desses pipelines — algo plausivel se o foco migrar para IA ofensiva — empresas e orgaos brasileiros precisarao reforçar fontes alternativas: ENISA (UE), NCSC (Reino Unido), ACSC (Australia) e CERTs nacionais.
Fonte: The Record
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