Qualcomm em conversas para comprar a Tenstorrent por até US$ 10 bi: o pulo do RISC-V contra a Nvidia
Qualcomm negocia compra da Tenstorrent, startup de chips RISC-V de Jim Keller, por US$ 8 a 10 bi. Por que o negócio mira o monopólio da Nvidia em IA.
Resumo: A Qualcomm estaria em estágio avançado de negociação para adquirir a Tenstorrent, startup de aceleradores de IA fundada por Jim Keller, por um valor entre US$ 8 e US$ 10 bilhões — um múltiplo de quase 3x sobre a avaliação de 2025. Se a operação se confirmar, será a segunda aquisição RISC-V da Qualcomm em seis meses, depois da Ventana Micro, e a peça que faltava para a empresa montar uma plataforma alternativa de inferência de IA, capaz de desafiar o oligopólio CUDA da Nvidia. Para o Brasil, é a primeira sinalização clara de que pode haver concorrência real no mercado de GPUs/AI accelerators a partir de 2027 — com efeito direto no custo de IA generativa.
O que está em jogo
A Tenstorrent foi fundada em 2016 e ganhou notoriedade quando Jim Keller — o arquiteto por trás do K8 da AMD, do A7 da Apple e do Zen — assumiu a liderança técnica. Diferente da Nvidia, que apostou cedo no CUDA e nas GPUs de uso geral, a Tenstorrent partiu de uma premissa diferente: usar núcleos RISC-V open source com aceleradores de IA acoplados, vendendo blocos de IP licenciáveis para clientes que querem desenhar seu próprio silício. Em junho de 2026, segundo o The Register, a Qualcomm propôs comprar a empresa inteira.
O movimento faz sentido para a Qualcomm por três razões. Primeiro, RISC-V é a única arquitetura aberta com chance de furar a parede x86/ARM em servidores. Segundo, a Tenstorrent já tem um compilador de inferência que aceita modelos PyTorch e ONNX — o atrito de adoção contra a Nvidia cai. Terceiro, com US$ 14 bilhões já alocados à própria estratégia de IA, a Qualcomm precisa de inferência além do mobile.
O contraponto à Nvidia
A Nvidia controla mais de 80% do mercado de aceleradores de IA. Sua trava real, porém, é o software (CUDA). Tenstorrent + Qualcomm é a primeira combinação que reúne capital, distribuição e tooling para construir uma alternativa de inferência aberta — não tão rápida quanto Blackwell ou Vera Rubin, mas barata, programável e licenciável em forma de IP. É a estratégia que a Intel tentou com Habana e Gaudi, e fracassou; e que a AMD persegue com MI400.
Por que importa — e o status no Brasil
O Brasil paga muito caro para rodar IA. Hoje, qualquer empresa que queira fazer inferência em escala depende de cloud com GPU H100 ou L40, com preços precificados em dólar e fila. Um silício RISC-V + AI da Qualcomm muda dois pontos:
- Custo de inferência local. Aceleradores Tenstorrent podem ser embutidos em servidores nacionais, baixando o ticket por token em ordens de magnitude para modelos de 7B-70B.
- Soberania. RISC-V é arquitetura aberta — o Brasil pode (em tese) licenciar IP e fabricar derivados via parcerias com Embraer, CEITEC e o ecossistema acadêmico de microeletrônica. Não acontece em 2026, mas a porta abre.
A janela competitiva mais imediata está nos modelos de IA em PT-BR, especialmente nos derivados de Llama, Sabiá e BERTimbau. Inferência mais barata vira preço mais baixo para o consumidor final.
Riscos e limitações
O acordo ainda não está fechado. A Intel também demonstrou interesse, e o ciclo de bidding pode estender o anúncio até o terceiro trimestre. Outros riscos:
- Performance gap. Tenstorrent ainda está longe de Hopper/Blackwell em benchmarks de treino. Para inferência, o gap é menor, mas o software stack precisa amadurecer.
- Software CUDA. Mesmo com compilador aberto, equipes de ML não saem do CUDA da noite para o dia. Migração custa tempo.
- Regulatório. Aquisição é grande o suficiente para chamar atenção do FTC, da Comissão Europeia e do CADE (no Brasil, dependendo do efeito no mercado local).
- Roadmap interno. A Qualcomm precisa decidir como integrar Tenstorrent sem canibalizar sua linha Cloud AI100 e a recém-anunciada estratégia AI200/250.
Cenário para os próximos 18 meses
Se o acordo se confirmar, espere três movimentos encadeados. Primeiro, um anúncio de arquitetura conjunta no fim de 2026 ou início de 2027 — provavelmente um chip que combine NPU Hexagon (Qualcomm) com motor de inferência Tenstorrent (Tensix). Segundo, parcerias com hyperscalers de segunda linha (Oracle, IBM Cloud, Vultr) para reduzir dependência de Nvidia. Terceiro, abertura de programa de licenciamento de IP RISC-V para fabricantes regionais, com Índia e Brasil como alvos óbvios.
Do lado da Nvidia, a resposta deve ser comercial: cortes pontuais de preço em modelos mais antigos, ampliação do programa NVAIE (Nvidia AI Enterprise) e investimento pesado em CUDA-X para travar incumbentes.
Análise SWOT — Qualcomm + Tenstorrent
- Reúne talento de hardware (Keller) e distribuição (Qualcomm).
- RISC-V open source viabiliza licenciamento de IP.
- Foco em inferência casa com o gargalo atual do setor.
- Performance em treino ainda fica abaixo da Nvidia.
- Maturidade do software stack inferior ao CUDA.
- Risco de canibalização da linha Cloud AI100.
- Mercado de inferência cresce mais rápido que treino.
- Soberania tecnológica em países emergentes.
- Bridge para edge computing (drones, automotive, robótica).
- Resposta agressiva de Nvidia e AMD.
- Aprovação antitruste lenta (FTC, EU, CADE).
- Outros bidders (Intel) podem subir o preço ou inviabilizar.
O que muda na prática
Para times de IA no Brasil, três sinais a observar: anúncios de cloud providers locais com Tenstorrent (Locaweb, Magalu Cloud, KingHost); leilões de hardware de IA realizados pelo BNDES; e movimentação do MCTI em parcerias de design de chip. Para CIOs, é cedo para reescrever stack de inferência, mas é cedo o suficiente para incluir “compatibilidade com aceleradores não-CUDA” em RFPs com horizonte de 18-24 meses.
Fonte original: The Register — AI/ML (cobertura específica em “Qualcomm said to be circling AI chip biz Tenstorrent in $10B RISC-V power play”).