Imagem editorial original do Plugged Ninja.
O Active Directory continua sendo o alvo que decide o desfecho de boa parte das intrusões corporativas. Quem controla o diretório controla autenticação, autorização e, na prática, a capacidade de se mover por toda a rede. Não é por acaso que atacantes correm para lá assim que conseguem o primeiro acesso.
Dois materiais ajudam a entender o tamanho do problema em 2026. O primeiro é a orientação conjunta Detecting and Mitigating Active Directory Compromises, conduzida pelo ACSC da Austrália e assinada também por CISA, NSA, pelo centro canadense e pelos centros nacionais do Reino Unido e da Nova Zelândia, publicada em setembro de 2024. O documento organiza 17 técnicas de comprometimento do diretório e as respectivas estratégias de mitigação.
O segundo é a leitura que a equipe de resposta a incidentes da Sophos publicou em 7 de outubro de 2026, assinada por Anthony Bradshaw, que lidera a operação global de resposta a incidentes do MDR da empresa. O texto cruza as 17 técnicas com o que a equipe encontra em campo — e com os números do Active Adversary Report 2026. É um material de fornecedor, com as ressalvas que isso implica, mas a base estatística e o mapeamento são úteis.
O Active Adversary Report 2026 da Sophos analisou 661 casos de resposta a incidentes e MDR, em organizações de 70 países e 34 setores, no período de 1º de novembro de 2024 a 31 de outubro de 2025. Alguns resultados ajudam a dimensionar o papel da identidade:
Cabe uma observação metodológica. O texto da Sophos também cita a edição de 2025 do mesmo relatório, que registrou mediana de 11 horas entre a primeira ação do atacante e a primeira tentativa de alcançar o diretório. Os dois números não se contradizem: um é mediana de uma amostra, o outro é média de outra, em período distinto. Lidos juntos, indicam a mesma direção — a corrida até o Active Directory é medida em horas, não em dias.
Há ainda um dado que afeta diretamente a capacidade de investigar: a perda de registros por problemas de retenção dobrou de um ano para o outro, com destaque para firewalls configurados com retenção padrão de sete dias e, em alguns casos, de 24 horas. Quando a permanência média é de três dias e o log vive 24 horas, a investigação começa cega.
A orientação conjunta lista as técnicas de forma plana. O agrupamento por objetivo do atacante, proposto na leitura da Sophos, facilita a tradução para controles práticos.
São as técnicas que transformam acesso nenhum, ou quase nenhum, em credencial válida: password spraying (tentar poucas senhas comuns contra muitas contas, evitando bloqueios), Kerberoasting (solicitar tíquetes de serviço e quebrá-los offline para obter a senha de contas de serviço), AS-REP Roasting (abusar de contas sem pré-autenticação Kerberos) e senhas em Group Policy Preferences, resquício de configurações antigas em que credenciais ficavam acessíveis no SYSVOL.
Nenhuma delas é nova — o Plugged Ninja já tratou da defesa de contas do diretório contra ataques baseados em senha — e é exatamente essa longevidade que explica por que seguem funcionando.
Aqui a credencial comum vira domínio: abuso do MachineAccountQuota (que por padrão permite a qualquer usuário criar contas de computador), delegação irrestrita, DCSync (fingir ser um controlador de domínio e pedir a replicação de hashes), extração do ntds.dit (a base do diretório inteira) e Shadow Credentials, que associa credenciais alternativas a uma conta existente.
O bloco que mais cresceu em relevância nos últimos anos: comprometimento do AD CS, a autoridade certificadora do domínio, que permite forjar o chamado Golden Certificate; além do clássico Golden Ticket (falsificação de tíquetes Kerberos a partir da conta krbtgt) e do Silver Ticket, sua variante restrita a um serviço.
Técnicas voltadas a permanecer e a atravessar a fronteira entre o diretório local e a nuvem: Golden SAML, comprometimento do Microsoft Entra Connect, bypass de relação de confiança unidirecional, abuso de SID History e Skeleton Key, que injeta uma senha-mestra na memória do controlador de domínio.
O agrupamento deixa visível um padrão: as quatro primeiras técnicas exploram senhas fracas ou mal guardadas; o segundo e o terceiro blocos exploram configurações padrão que nunca foram revisadas; o quarto explora a costura entre ambiente local e nuvem, que é onde muita organização ainda não tem visibilidade.
A característica que une boa parte dessas técnicas é que elas usam funcionalidades legítimas do protocolo. Pedir um tíquete de serviço Kerberos é operação normal. Replicar dados entre controladores de domínio é operação normal. Criar uma conta de computador é operação normal, e o padrão do MachineAccountQuota permite que qualquer usuário o faça.
O sinal de ataque raramente está no evento isolado: está no contexto. Uma conta de serviço que nunca pediu tíquetes passar a pedir dezenas em sequência; uma estação de trabalho — e não um controlador de domínio — solicitar replicação de diretório; uma conta de computador recém-criada por um usuário comum logo antes de uma escalada. Por isso a orientação conjunta e o texto da Sophos convergem no mesmo ponto: correlacionar sinais de autenticação, endpoint e diretório vale mais do que qualquer assinatura isolada.
É justo registrar o limite do material da Sophos. O texto é conceitual e termina cada seção apontando para os serviços da própria empresa; não traz consultas de detecção, identificadores de evento nem procedimentos passo a passo. Para engenharia de detecção concreta, a referência continua sendo o documento original da orientação conjunta, que o próprio texto da Sophos indica.
O lado favorável é que praticamente nenhum desses controles exige compra de produto novo: gMSA, MachineAccountQuota, separação de camadas e revisão de modelos de certificado são configurações do próprio ambiente. A limitação é que várias delas quebram integrações antigas — contas de serviço com senha fixa em aplicações legadas, automações que dependem de criação livre de contas de computador. Essa é a razão mais comum pela qual ambientes maduros seguem com configurações padrão de uma década atrás.
Há também o que os números não dizem. A amostra do relatório é composta por organizações que contrataram resposta a incidentes ou MDR de um fornecedor específico, o que tende a sobre-representar certos perfis e setores. Os percentuais descrevem bem a direção do problema, mas não devem ser lidos como estatística universal do mercado.
A orientação conjunta de 2024 segue atual porque as técnicas que ela cataloga não dependem de falhas novas: dependem de senhas fracas, configurações padrão e da costura entre diretório local e nuvem. Os dados de 2026 reforçam o diagnóstico — dois terços dos incidentes começam na identidade e o diretório é alcançado em poucas horas.
Para quem administra Active Directory, o caminho prático é ir pelo grupo de técnicas, não pela lista: fechar a obtenção de credenciais com MFA resistente a phishing e gMSA, fechar a escalada com MachineAccountQuota e separação de Tier 0, revisar o AD CS e, só então, investir em detecção correlacionada. O que vale acompanhar é se as próximas edições do relatório mostram queda nas 3,4 horas até o diretório — ou se o número continua caindo apenas do lado do atacante.
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