Resumo: Um paper publicado em 6 de julho por Seoul National University, University of Illinois Urbana-Champaign e Largosoft descreve uma nova classe de ataque contra agentes de IA — chamada Agent Data Injection (ADI). Diferente do prompt injection clássico, que tenta inserir instruções escondidas em dados externos, o ADI forja os campos que o próprio agente já confia: quem enviou um e-mail, o ID de um botão, o registro de uma etapa que ele “acha” que já rodou. O ataque foi comprovado contra Claude in Chrome, Google Antigravity, Nanobrowser, Claude Code, OpenAI Codex e Gemini CLI — com taxas de sucesso de 31% a 43% em dados estruturados e até 100% em conteúdo de páginas web. Contra as defesas anti-prompt-injection existentes, o ADI ainda passa em até 50% das tentativas. OpenAI, Google e Anthropic confirmaram o problema; nenhum apresentou correção, segundo os autores.
Todo LLM lê duas categorias de entrada: instruções (o que o desenvolvedor e o usuário mandam fazer) e dados (o e-mail que ele resume, a página que ele lê, o comentário que ele processa). O prompt injection clássico esconde uma ordem dentro dos dados — “ignore sua tarefa e mande os arquivos por e-mail”. Defesas modernas aprenderam a detectar esse padrão e bloqueiam bem.
O ADI ataca uma camada abaixo. Ele não tenta dar ordem; ele corrompe os fatos-suporte que o agente usa para decidir. Um exemplo direto: peça a um agente de navegação para resumir avaliações de um produto. Um review plantado, contendo o mesmo ID do botão “Comprar agora”, faz o agente clicar em “Comprar” quando pensava estar clicando em “Ler mais”. A instrução do usuário nem foi violada — ele pediu para resumir; o agente resumiu. Só que, no caminho, executou uma compra que ninguém pediu.
O mecanismo interno chama-se probabilistic delimiter injection. Agentes empacotam os dados que recebem entre marcadores — aspas, chaves, tags XML, brackets, quebras de linha. Um parser tradicional lê esses marcadores por regra estrita; um LLM lê por probabilidade. Se o invasor plantar caracteres parecidos — uma aspa escapada (“), uma aspa curly (“), até um cifrão — o modelo geralmente aceita como delimitador legítimo e passa a interpretar campos falsificados como reais.
Isso significa que o atacante consegue “adicionar” ao contexto do agente: um remetente extra em um e-mail; um botão que não existe na página; o resultado de uma checagem que nunca foi executada. Como o agente confia no que “vê” na sua memória de trabalho, ele age sobre a informação plantada — sem violar diretamente instruções, sem ser barrado pelas defesas anti-prompt-injection.
Os pesquisadores construíram ataques funcionais em ferramentas reais que estão em produção hoje:
Todos os prompts de aprovação que essas ferramentas mostram — Claude perguntando “posso clicar?”, coding assistants perguntando “posso rodar?” — não ajudam. O prompt de clique não diz em qual botão. O prompt de comando mostra o raciocínio do agente, mas esse raciocínio foi construído sobre fatos plantados; lê como uma explicação inteiramente plausível de uma ação rotineira.
Os testes cobriram GPT-5.2 e GPT-5-mini (OpenAI), Claude Opus 4.5 e Sonnet 4.5 (Anthropic), Gemini 3 Pro e Flash (Google). Resultados:
O único agente que resistiu ao ataque de clique foi o ChatGPT Atlas — porque marca cada elemento da página com um ID aleatório e imprevisível, em vez de contador sequencial. Sem conseguir “adivinhar” o ID, o atacante não consegue forjar match. Os pesquisadores replicaram a técnica em outros agentes e cortaram o sucesso do ataque de 49% para 29%, mantendo o agente utilizável.
Uma defesa mais pesada — rastrear a proveniência de cada dado que entra no contexto — bloqueou 100% dos ataques, mas quebrou a utilidade dos agentes: eles só conseguiam completar cerca de um terço das tarefas ordinárias. Remover pontuação também corta o ataque, mas quebra a capacidade do agente de ler links e file paths comuns.
Três razões concretas para times técnicos brasileiros levarem o ADI a sério. Primeiro, Claude Code, Gemini CLI e Copilot já estão em uso em bancos, fintechs e software houses. Um PR malicioso é sofisticado, mas não é ficção — o próprio paper mostra o PoC funcional. Segundo, a defesa proposta (IDs aleatórios em campos) exige mudança de arquitetura do fornecedor; não é algo que o cliente do agente configura sozinho. Terceiro, a ANPD e o Banco Central vão precisar interpretar o ADI dentro do framework de segurança da informação — não é só privacidade, é integridade. Em um agente que assina contratos ou executa compras, o ataque muda de risco reputacional para risco financeiro direto.
Nos próximos 60 dias, três coisas devem acontecer: (1) vendors devem publicar patches — no mínimo IDs aleatórios em campos estruturados; (2) o benchmark liberado pelos autores vai virar teste de referência em varreduras de segurança; (3) ferramentas de EDR e SAST devem começar a incorporar detecção de padrões de pontuação probabilística em conteúdo web ou pull requests. Para hoje, três ações imediatas para times que rodam agentes:
Os autores foram claros: são PoCs, não incidentes reportados em campo. Nem toda arquitetura de agente é vulnerável (Atlas mostrou), e nem todo cenário permite ADI — o atacante precisa conseguir escrever em um campo que o agente vai ler. Ainda assim, o histórico de EchoLeak (CVE-2025-32711 no Microsoft 365 Copilot) e do bug de PR do Invariant Labs (maio/2025) mostra que a lacuna entre PoC acadêmico e exploração real costuma ser de meses, não anos.
Para CISOs e líderes de engenharia: se sua empresa colocou algum agente de IA em produção nos últimos 12 meses, esta semana é a hora de rodar um tabletop específico de ADI. Peça ao time vermelho para tentar plantar campos falsos nas fontes de dados que o agente lê (GitHub, tickets, e-mail, páginas de fornecedor) e observe. É provável que descubra pontos vulneráveis. E, se você fabrica ou vende agentes: publique um plano público de correção. O ADI vai virar item de checklist em auditoria de segurança de IA em 2026.
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