Resumo: O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), em conjunto com o FBI, expôs uma operação russa de longa duração que sequestrou contas de mensageiros – como Signal, Telegram e WhatsApp – de funcionários públicos, militares, políticos e ativistas na Ucrânia, na Europa e nos Estados Unidos. O ataque depende exclusivamente de engenharia social, não de falhas técnicas nos aplicativos.
A SBU divulgou na quinta-feira que, ao lado do FBI, detectou e estuda há meses uma campanha russa estruturada para capturar contas de mensageiros instantâneos usadas por autoridades estrangeiras. O alvo é claro: informação militar, política e econômica que circula em conversas privadas – somada a dados pessoais que servem para perfis de inteligência e operações futuras.
O foco em apps de mensagens reflete uma mudança de comportamento. Plataformas como Signal e Telegram tornaram-se canal de comando informal em governos, exércitos e ONGs, especialmente em zonas de conflito. Comprometer uma única conta entrega acesso a meses ou anos de histórico, listas de contatos sensíveis e grupos restritos.
De acordo com a SBU, a campanha é executada por estruturas de inteligência ligadas ao Kremlin, com infraestrutura distribuída e operações em vários idiomas. Os EUA acompanharam o ofereceram US$ 10 milhões em recompensa por informações que levem aos operadores, segundo cobertura paralela da SecurityWeek.
A SBU enfatiza que não há exploração de vulnerabilidades nos aplicativos em si – todos os comprometimentos derivam de engenharia social. A técnica mais comum é o envio de SMS que imita o suporte oficial da plataforma, pedindo que o usuário confirme um código ou clique em um link para “validar a conta”. O resultado é o atacante adicionando o próprio dispositivo à conta-alvo (account linking) e passando a receber, em tempo real, todas as mensagens recebidas.
Outra variação observada são links de “convites para reuniões” disfarçados de Zoom, Microsoft Teams ou plataformas oficiais ucranianas, com páginas-clone que pedem login. A SBU também documentou casos em que o atacante se faz passar por contato conhecido da vítima a partir de uma conta já comprometida – encurtando a distância de confiança.
“As mensagens são enviadas no início da manhã, quando os usuários estão fisicamente e emocionalmente mais vulneráveis”, afirmou a SBU em comunicado oficial.
O timing operacional é estudado: e-mails e SMSs chegam antes das 9h, antes do café, quando a vítima está rolando a tela do celular ainda na cama. Esse detalhe transforma o ataque de “phishing genérico” em operação focada, com taxa de sucesso bem mais alta.
O caso reforça duas tendências que já vinham se desenhando desde o início da invasão russa em 2022. A primeira é o deslocamento da ciberespionagem para fora dos clientes corporativos tradicionais – e-mail, VPN, ERP – em direção aos aplicativos de mensagem usados informalmente para coordenação. A segunda é a maturação do uso de engenharia social como vetor preferencial: apps cifrados como Signal estão tecnicamente bem-defendidos, mas o elo humano segue rendido em poucos toques.
Operações ucranianas anteriores já tinham revelado o uso intensivo de smishing pela inteligência russa – especialmente os grupos rastreados como Gamaredon e Turla. A diferença aqui é a coordenação SBU + FBI, que indica volume e impacto suficientes para mobilizar agências dos dois lados do Atlântico ao mesmo tempo – e o anúncio da recompensa milionária do Departamento de Estado americano.
Para o público brasileiro, a leitura é menos sobre o conflito específico e mais sobre o método. Engenharia social via SMS que se passa por suporte oficial de Signal, WhatsApp ou Telegram é a mesma engenharia social usada contra executivos no setor financeiro, jornalistas e ativistas em qualquer país. O playbook é o mesmo – muda apenas o alvo.
Fonte: The Record
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