Resumo: A Majestic Labs, startup fundada por ex-engenheiros de Google e Meta, apresentou o Prometheus: um servidor de rack único com até 128 TB de memória LPDDR6 compartilhada e 12 chips Ignite — um SoC próprio que combina núcleos ARM, vetoriais RISC-V e tensoriais em um único die. A promessa: substituir cerca de 10 racks de servidores de GPU convencionais para modelos de trilhões de parâmetros e cargas agênticas, atacando o “memory wall” que tem virado o verdadeiro gargalo dos data centers de IA em 2026.
Os números crus já contam parte da história. Uma GPU NVIDIA Blackwell B200 entrega em torno de 144 GB de HBM3e por placa. O Prometheus, em um único chassi, oferece 128 TB de DRAM LPDDR6 compartilhada — cerca de 1.000x mais memória disponível por nó. A Majestic não usa HBM (a memória empilhada acoplada às GPUs) porque ela é cara, restrita em volume e dominada por SK Hynix e Samsung. LPDDR6 é mais lenta por pino, mas escala de forma brutal em capacidade.
Para que isso funcione com performance aceitável, a Majestic desenvolveu uma interface proprietária de memória feita com cabos de cobre em miniatura, eficaz até cerca de um metro. Dentro do nó, cada um dos 12 chips Ignite enxerga a memória como um espaço unificado — característica essencial para rodar Mixture-of-Experts e cargas agênticas, em que o roteamento dinâmico entre “especialistas” e o keep-alive de muitos contextos longos viram o maior consumo.
Em 2026, o limite prático dos data centers de IA deixou de ser FLOPs e passou a ser memória e movimentação de dados. Modelos de fronteira têm context windows de milhões de tokens, cache KV gigantesco e Mixture-of-Experts com dezenas a centenas de especialistas. O custo dominante deixou de ser “calcular” e passou a ser “manter os dados perto”. É esse o “memory wall” — e é nele que a Majestic decidiu bater.
Se a promessa se confirmar em workloads reais, um servidor Prometheus substitui aproximadamente 10 racks de servidores de GPU, com consolidação proporcional de energia, refrigeração e espaço de piso. Para hyperscalers brigando por megawatts em terras com energia escassa (e isso inclui boa parte da Europa e algumas regiões dos EUA), a economia operacional é direta.
O Brasil ainda não tem footprint relevante de hyperscaler para treino de modelos de fronteira, mas três pontos merecem atenção:
Três cuidados honestos. Primeiro, a interface de memória proprietária é uma faca de dois gumes: facilita a engenharia da Majestic, mas dificulta interoperabilidade — se a empresa não convencer um grande cliente a adotar e ajudar a portar software, o stack pode ficar isolado. Segundo, a comparação “substitui 10 racks de GPU” depende muito da carga; para treinamentos pesados e dependentes de bandwidth de HBM, a vantagem cai. Terceiro, software importa mais que hardware: NVIDIA tem 15 anos de CUDA, kernels otimizados e comunidade. Qualquer chip novo precisa endereçar isso antes de virar uma decisão racional para um CTO conservador.
O Prometheus chega em uma onda. NVIDIA respondeu rápido: anunciou Spectrum-X Photonics (co-packaged optics) para baixar latência entre racks de GPU e prepara o Rubin para 2027. A Huawei prepara o Ascend 950 com meta de 1 petaflop em FP8 e o Atlas 950 SuperPoD com 8.192 chips. Intel investe em packaging avançado para chips ainda maiores. A leitura de mercado é convergente: quem dominar memória e interconexão domina o jogo. Que essa briga seja vencida por uma startup israelense-americana, por uma chinesa ou pela NVIDIA é, hoje, questão aberta.
Para arquitetos de plataforma e CTOs: o sinal claro é que decisões de infraestrutura de IA para 2027 não devem ser tomadas só em GPU/HBM. Vale pedir benchmarks com cargas agênticas reais (não só MMLU), considerar TCO em 3–5 anos e exigir provas de portabilidade do stack. Para investidores e analistas: o segmento de “memory-first AI hardware” é, hoje, uma das poucas frentes em que startups têm chance real contra a NVIDIA — não porque consigam ganhar em FLOPs, mas porque escolheram outra dimensão do problema.
Fonte original: IEEE Spectrum — Huge Memory AI Server Aims to Shatter the Memory Wall. Comunicado de imprensa: Majestic Labs / Business Wire (28 de abril de 2026).
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