Pesquisadores da Symantec e do time Carbon Black Threat Hunter, da Broadcom, identificaram um novo backdoor escrito em Go — rastreado como Backdoor.Turn — que abusa dos servidores TURN da Microsoft, usados para retransmissão de mídia do Teams, como canal de command-and-control. O malware foi implantado por operadores do ransomware DragonForce em um ataque contra uma empresa de serviços nos Estados Unidos e, segundo os pesquisadores, é a primeira família de malware conhecida a sequestrar a infraestrutura TURN dessa forma. O tráfego de C&C aparece nos sensores de segurança como conexões legítimas para servidores da Microsoft.
O grupo DragonForce, ativo desde 2023, vem operando em uma estrutura tipo cartel e adotando técnicas avançadas que sugerem maturidade organizacional e alocação significativa de recursos. O ataque analisado pelos pesquisadores ocorreu em uma empresa norte-americana de serviços, com a entrada inicial datada de dezembro de 2025 — provavelmente via exploração de uma vulnerabilidade desconhecida em um servidor SQL/MSSQL ou compra de acesso a um broker.
Após o comprometimento inicial, os operadores recorreram a DLL sideloading para carregar código que buscava malware adicional em servidores remotos, estabeleceram persistência e conduziram reconhecimento na rede. A escalada chegou ao nível de kernel via BYOVD (bring-your-own-vulnerable-driver), técnica em que o atacante carrega um driver legitimamente assinado mas vulnerável para terminar processos de segurança e operar como SYSTEM.
O ransomware DragonForce foi então implantado para cifrar e exfiltrar dados, mas o detalhe inovador é o que veio depois: a instalação do Backdoor.Turn como mecanismo de persistência pós-ataque, mesmo após o ransom ser pago e a vítima acreditar ter recuperado o ambiente.
A inovação técnica do Backdoor.Turn está no canal de C&C. O malware, escrito em Go, obtém um token de visitante anônimo nas APIs de identidade Skype-backed da Microsoft, abre uma sessão usando um relay TURN legítimo da Microsoft e, sobre essa conexão, estabelece uma sessão QUIC com o servidor real do operador. Do ponto de vista da rede corporativa, o que se vê é uma estação Windows conversando com um servidor TURN da Microsoft — padrão indistinguível de uma chamada normal do Microsoft Teams.
“Os atacantes nesta campanha usam um tradecraft cibernético excepcionalmente sofisticado. A configuração do Backdoor.Turn faz com que produtos de segurança vejam apenas tráfego de C&C indo para servidores legítimos do Teams, deixando os defensores sem perceber que os dados estão sendo desviados”, relataram os pesquisadores da Symantec.
A escolha do QUIC sobre TURN é especialmente engenhosa: TURN (Traversal Using Relays around NAT) foi desenhado justamente para encaminhar mídia entre clientes atrás de NAT, e o Teams já abre essas conexões rotineiramente em qualquer ambiente que use a plataforma. QUIC, por sua vez, é tunelado dentro de UDP, dificulta a inspeção profunda de pacotes e, quando empacotado dentro do TURN, fica protegido por uma camada adicional. Não há domínio suspeito a bloquear; não há IP exótico a marcar; o tráfego visualmente cumpre tudo que se espera de Teams.
O Backdoor.Turn marca um ponto de inflexão no uso de “living off trusted services” pelos grupos de ransomware. Já vimos C&C via Telegram, Discord, GitHub Pages e até Notion — mas o TURN é qualitativamente diferente. TURN é parte essencial da pilha de telecomunicação corporativa; bloqueá-lo no perímetro quebra o Microsoft Teams. Não é um canal opcional que o time de segurança pode banir; é infraestrutura crítica de negócio. Os atacantes encontraram um ponto cego estrutural.
É também incomum ver um grupo de ransomware investir em desenvolvimento de ferramenta proprietária com esse grau de polimento — a maioria depende de Cobalt Strike, Sliver e off-the-shelf. A Symantec/Carbon Black destaca isso como sinalizador de que o DragonForce tem músculo financeiro e técnico para sustentar um ciclo de R&D ofensivo, possivelmente alimentado pelos próprios lucros do programa de afiliados.
Para defensores, o caso reforça duas lições. Primeiro, a detecção baseada em destino (allowlist de IPs/domínios) chegou ao seu limite contra atacantes que abusam de serviços confiáveis em massa — é preciso evoluir para análise de comportamento, contagem de sessões, perfis de tráfego e desvios estatísticos. Segundo, o paradigma “pagamos o ransom, restauramos backups, está resolvido” continua perigosamente otimista: backdoors plantados para sobreviver à remediação são parte do playbook moderno.
Fonte: SecurityWeek
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