Autoridades alemãs e norte-americanas prenderam Owe Martin Andresen, 49 anos, suspeito de ser o administrador principal do Dream Market, um dos maiores mercados da dark web encerrados em 2019. Durante operação simultânea em três locais no dia 7 de maio, agentes apreenderam US$ 1,7 milhão em barras de ouro, US$ 23 mil em dinheiro e mais US$ 1,2 milhão em contas bancárias e carteiras de criptomoeda. O DOJ alega que Andresen lavou cerca de US$ 2 milhões entre 2023 e 2025 e ele acumula penas que somam até 240 anos de prisão nos Estados Unidos.
A revelação veio com a abertura de uma denúncia desselada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos nesta semana. O texto identifica Owe Martin Andresen, cidadão alemão, como o administrador central do Dream Market — fórum criminoso que rodava sobre a rede Tor e operava com pagamentos em criptomoedas. Andresen foi preso em 7 de maio, durante uma operação coordenada que atingiu sua residência e mais dois endereços na Alemanha.
O caso ganha contornos peculiares pela tentativa rudimentar de lavagem de dinheiro do investigado. Após o encerramento do Dream Market em 2019, Andresen aparentemente manteve acesso às carteiras de criptomoeda do mercado e, em 2022, começou a movimentar os fundos. A estratégia escolhida envolvia a compra de barras de ouro em uma empresa de Atlanta, nos Estados Unidos, com envio dos lingotes para a Alemanha — uma operação que, embora pareça sofisticada à primeira vista, deixou trilha contábil suficiente para o rastreamento das autoridades.
O U.S. Attorney Theodore Hertzberg confirmou que o suspeito “será processado tanto na Alemanha quanto nos Estados Unidos como resultado de suas ações”. A questão da extradição ainda está em aberto: o DOJ não respondeu publicamente se solicitará a transferência de Andresen, que já enfrenta acusações em solo alemão.
Documentos da corte indicam que o Dream Market foi lançado em 2013 por Andresen e outros parceiros. Em seu auge, o site reuniu mais de 100 mil listagens ativas, posicionando-se como um dos pilares do ecossistema criminoso da dark web — junto com nomes históricos como Silk Road, AlphaBay e Hansa. A operação rendeu comissões substanciais aos administradores, calculadas sobre o volume de tráfico de drogas, dados pessoais roubados, documentos falsos e outros itens ilegais negociados na plataforma.
“Andresen supostamente canalizou comissões obtidas com a venda de drogas ilegais, informações pessoais roubadas, documentos de identificação falsificados e outros itens por meio de carteiras de criptomoedas — e até converteu seus ganhos ilícitos em barras de ouro.”
Denúncia do Departamento de Justiça dos EUA
Os números encontrados nos processos são impressionantes. Segundo a acusação, o Dream Market intermediou a venda de aproximadamente 90 kg de heroína, 450 kg de cocaína, 25 kg de crack, 36 kg de fentanil, além de volumes não divulgados de outras substâncias. O modelo de negócio era idêntico ao de marketplaces legítimos: vendedores listavam produtos, compradores faziam pedidos, criptomoedas em escrow eram liberadas após confirmação de entrega — e a casa cobrava uma porcentagem sobre cada transação.
Quando uma operação policial em 2019 derrubou parte significativa da estrutura do site, o Dream Market anunciou seu próprio encerramento — uma manobra clássica dos administradores para tentar sair de cena antes que as autoridades chegassem ao topo da hierarquia. À época, vendedores e um administrador de nível médio foram presos no Reino Unido, mas o administrador principal nunca havia sido identificado publicamente.
O passo mais arriscado de Andresen, segundo a acusação, foi reativar as carteiras dormentes em 2022. A movimentação dos fundos para novas carteiras gerou rastros on-chain analisáveis por ferramentas de análise de blockchain como Chainalysis e TRM Labs — duas empresas que vêm trabalhando de perto com agências federais americanas em casos de criptolavagem. A partir daí, a compra recorrente de barras de ouro em Atlanta, com remessa internacional para a Alemanha, fechou o ciclo de rastreabilidade contábil.
O total lavado entre agosto de 2023 e abril de 2025 chegaria a cerca de US$ 2 milhões. Quando os agentes invadiram as três localizações em 7 de maio, encontraram aproximadamente US$ 1,7 milhão em ouro físico, US$ 23 mil em dinheiro e identificaram outros US$ 1,2 milhão em contas bancárias e carteiras digitais associadas ao Dream Market. A apreensão sinaliza que o esquema de conversão para ouro físico, longe de ser um cofre seguro, simplesmente concentrou os ativos em um único ponto de captura.
A prisão de Andresen se encaixa em uma tendência clara da última década: operações contra darknet markets têm sido cada vez mais bem-sucedidas em chegar ao topo da hierarquia, e não apenas aos vendedores de varejo. Casos como o desmonte da AlphaBay, da Hansa, e mais recentemente do administrador de outro mercado preso semanas atrás (com sentença de 16 anos), mostram que a paciência das autoridades — combinada com avanços em análise forense de blockchain e cooperação internacional — está estreitando as opções de fuga para operadores de longa duração.
Tecnicamente, a escolha de Andresen por ouro físico é interessante. Por um lado, o ouro é fungível, líquido em muitos mercados, e historicamente popular como reserva de valor para quem desconfia de instituições financeiras. Por outro, ele exige logística — armazenamento, transporte, conversão de volta para dinheiro — e cada etapa cria oportunidades de detecção. Compare isso com mixers, tumblers e privacy coins, que continuam sendo investigados, mas que ao menos não geram remessas postais internacionais com rastreamento UPS.
Para o ecossistema cripto, o caso reforça uma mensagem que profissionais de compliance vêm repetindo há anos: a privacidade percebida da blockchain pública é, na prática, uma transparência muito maior do que a do sistema financeiro tradicional. Carteiras conhecidas como vinculadas a mercados encerrados ficam “marcadas” indefinidamente, e qualquer movimentação futura aciona alertas automatizados. Para usuários legítimos isso pode ser inconveniente; para administradores de mercados criminosos, é uma armadilha de longo prazo.
Andresen foi formalmente indiciado em seis acusações de lavagem de dinheiro e mais seis de lavagem internacional, somando uma pena máxima teórica de 240 anos em solo norte-americano e mais cinco anos pelas acusações alemãs. O caso deve servir de baliza para o tratamento jurídico de administradores de mercados criminosos nos próximos anos.
Fonte: The Record
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